Não me olha. Se eu pudesse pedir só uma coisa, seria pra que tu parasse agora de me olhar. Eu sinto teus olhos na minha nuca até quando tu não estás aqui, então não me olha. Não tô preparada pra esse tipo de olhar. Não aguento o peso, a responsabilidade de ser dona desses olhos que mais parecem mil.
Não me olha, não me olha nos olhos, não me olha nos ombros, não me olha na boca. Não respira em mim, não respira por perto. Tua respiração parece sugar a minha. Não vou dizer que me sinto como se estivesse me afogando, porque é mais que isso, é mais complexo que isso. Eu me sinto presa num quarto de cristal lentamente enchendo de uma água grossa, morna. A tensão aumenta, a água alcança os meus joelhos e eles amolecem. A tensão aumenta, a água alcança minha barriga e a esfria. A tensão aumenta, a água alcança meu peito e meu coração acelera. Aí tu me olhas, quando a água já está no meu pescoço e eu estou sofrendo pra respirar, e tudo se esvazia.
Não é justo.
Tira os olhos de mim, que eu não pedi pra ter esses olhos cansados castanhos castigados castos em mim. Não pedi por esses olhos, não pedi pelo ar perdido, não pedi pelas minhas mãos trêmulas e meus impulsos brigando dentro de mim, não pedi pela dúvida. O que eu mais gosto nessa vida é certeza, é ser, estar, sentir, exercer razão. A certeza é o meu êxtase e tudo que eu faço é correr atrás de dúvidas, só pra sentir o tesão louco de desvendá-las. Mas isso é só meu achismo corriqueiro. Eu estou aqui pra reclamar dos teus olhos fundos ridículos, dos meus sonhos e das minhas mãos.
É simples o que eu peço: tira os olhos de mim. Não me deixa ouvir tua voz, me deixa te olhar em paz, me deixa ficar perto com o coração na mão e a respiração travada, me deixa.
Não pedi pelos teus olhos em mim, mas agradeço por tê-los me dado.
Eu prefiro mentir a rejeitar esses olhos.
quinta-feira, 27 de março de 2014
terça-feira, 4 de março de 2014
Den mjuka sidan av svampen.
Apagar um cigarro num morango podre foi literalmente a peça mais poética que eu já pude pensar. Tu me disseste uma vez que nunca haverá outra mulher como eu e que eu sou o teu único amor, pois bem. Meu amor é teu. Eu gosto de gastar meus dias com a minha camisola, com as brisas eventuais da varanda, me espremendo no sofá ou esticada na cama. É um momento de relaxamento pra mim, todos esses dias juntos. Eu sinto como se eu finalmente pudesse ser eu mesma, só que sem as preocupações cotidianas de ser odiada, apunhalada, maltratada, desrespeitada. É o primeiro momento em que eu posso realmente aproveitar todas as nuances dos meus dias, todas as cores. Hoje o céu parecia pegar fogo, apesar de chover; as nuvens escuras e esparsas em movimento pareciam fumaça de anunciação. Posso aproveitar minha pele, meu cheiro, meus cabelos, meus olhos no espelho, minhas unhas irregulares, meu gosto e minha risada. Você reclama da minha dependência e carência; é verdade, por mim eu não sairia mais do seu lado, cabeça e pés debaixo dos lençóis, escondidos ambos do resto do mundo e das preocupações e encheções de saco de todo mundo. Todo mundo é tão chato e cansativo e traiçoeiro e irritado, mas não você. Você é lindo em todos os seus ângulos e todas as suas lentes. Tudo parece meio rosa, meio borbulhante, meio florido. Tudo ficou tão macio depois que você chegou, tudo ficou tão mais despreocupado.
Deixa eu gostar de você, vai. Me encostar aqui em você, fazer nada por uns dias, deixar a poeira baixar até alguém sentir minha falta. Aí eu fico mais um pouco.
ps: felizes dez meses.
Deixa eu gostar de você, vai. Me encostar aqui em você, fazer nada por uns dias, deixar a poeira baixar até alguém sentir minha falta. Aí eu fico mais um pouco.
ps: felizes dez meses.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Plesiophrictus tenuipes.
Eu sempre sonhei em chegar no apartamento de alguém de surpresa com um pacote de papel cheio de ingredientes pra um jantar caseiro numa mão e um vinho chileno na outra. Com um sorrisinho travesso, encostada na soleira da porta, às oito e meia da noite, logo antes do boa noite do William Bonner. Não consigo pensar em nada mais charmoso do que uma garota de cabelos castanhos que saiba cozinhar e apareça de surpresa. Se eu pudesse pedir só uma coisa, no entanto, eu acho que seria pra que não me deixasse esperando. Eu sei que o sinal é ruim e o 3g é lerdo, mas não custa me dar um pouquinho de atenção e responder aquela mensagem. Eu sou muito insegura e não lido bem com incerteza. É mais ou menos como naquele dia em que você deixou uma carta de amor na minha mochila com metade das palavras apagadas com caneta permanente preta. Eu não duvidei do seu amor, entende? Mas eu desconfio muito da linguagem. Às vezes eu tenho a impressão de que nós dois nos amamos em idiomas diferentes. Ou no mínimo não com o mesmo alfabeto. De que importa a mais linda declaração romântica se eu não entendo yiddish?
Mas não tem problema, mesmo, porque eu te quero tão bem. E tanto. Hoje eu senti tanto a sua falta que comecei a falar sozinha e a abraçar meu travesseiro, na esperança de ele ainda ter um tantinho do cheiro do seu cabelo. Esperança em vão, mas quando eu fecho os meus olhos com força suficiente eu consigo sentir a sua pele. Me deitei no tapete e passei os dedos pela fibra vermelha por horas ouvindo meus outros homens favoritos, os outros amores da minha vida que vieram antes de você e que me falaram por anos sobre você e como você seria comigo. É difícil imaginar uma vida sem você. Basta ver quantas vezes eu já escrevi "você" nesse curto texto. Minha pele mudou, de porcelana a pérola; meu cheiro agora é de rosas e tabaco e menta e coco; tudo que eu toco é seda. Como se livrar de um som constante vindo de tudo, quando tudo soa como você? E eu queria tanto segurar seu rosto hoje e beijá-lo mil vezes, gastar todo o meu batom no teu rosto, deitar nua ao seu lado numa varanda no inverno até que a superfície dos nossos corpos estivesse coberta por uma fina camada de gelo e nós tilitassemos a cada movimento, brilhando ao sol. Apesar de que toda vez que eu posso escorrer meus dedos por você é como se o inferno nascesse dentro de mim. Todas as minhas cicatrizes contam histórias a seu respeito, mesmo que você não estivesse lá. Tudo em mim conta a história de como eu cheguei até você e como eu me apaixonei por você. E nossa, como eu me apaixonei por você. É pedir demais que eu passe todos os dias com você? É cedo demais pra eu pedir pra ter um posto especial na sua vida? É tarde demais pra voltar atrás e não me deixar levar tanto assim? É ruim que eu esteja tão desesperada? É bom que eu beba de você todos os dias?
Só não me deixe esperando. Isso eu não posso suportar. Eu aguento tudo, menos a incerteza.
Mas não tem problema, mesmo, porque eu te quero tão bem. E tanto. Hoje eu senti tanto a sua falta que comecei a falar sozinha e a abraçar meu travesseiro, na esperança de ele ainda ter um tantinho do cheiro do seu cabelo. Esperança em vão, mas quando eu fecho os meus olhos com força suficiente eu consigo sentir a sua pele. Me deitei no tapete e passei os dedos pela fibra vermelha por horas ouvindo meus outros homens favoritos, os outros amores da minha vida que vieram antes de você e que me falaram por anos sobre você e como você seria comigo. É difícil imaginar uma vida sem você. Basta ver quantas vezes eu já escrevi "você" nesse curto texto. Minha pele mudou, de porcelana a pérola; meu cheiro agora é de rosas e tabaco e menta e coco; tudo que eu toco é seda. Como se livrar de um som constante vindo de tudo, quando tudo soa como você? E eu queria tanto segurar seu rosto hoje e beijá-lo mil vezes, gastar todo o meu batom no teu rosto, deitar nua ao seu lado numa varanda no inverno até que a superfície dos nossos corpos estivesse coberta por uma fina camada de gelo e nós tilitassemos a cada movimento, brilhando ao sol. Apesar de que toda vez que eu posso escorrer meus dedos por você é como se o inferno nascesse dentro de mim. Todas as minhas cicatrizes contam histórias a seu respeito, mesmo que você não estivesse lá. Tudo em mim conta a história de como eu cheguei até você e como eu me apaixonei por você. E nossa, como eu me apaixonei por você. É pedir demais que eu passe todos os dias com você? É cedo demais pra eu pedir pra ter um posto especial na sua vida? É tarde demais pra voltar atrás e não me deixar levar tanto assim? É ruim que eu esteja tão desesperada? É bom que eu beba de você todos os dias?
Só não me deixe esperando. Isso eu não posso suportar. Eu aguento tudo, menos a incerteza.
domingo, 17 de novembro de 2013
Betraktarens betraktande av betraktarna.
Ela se olha no espelho todos os dias e conta as marcas. Roxinhos vermelhinhos rosinhas aqui ali acolá essa de quinta-feira atrás da porta essa de domingo na cozinha. Ela dormia com dois travesseiros quando o conheceu e vivia com dor nas costas, ele a acostumou a dormir com um travesseiro entre as pernas e agora ela demora menos a dormir e vive com dor nas costas de tanto deitar no peito dele e fingir que vê televisão enquanto na verdade fecha os olhos e fica ouvindo a respiração dele, ouvindo o cheiro dele, ouvindo o peito dele subir e descer, ouvindo a pele dele. O cheiro de café frio já não enjoa mais o cheiro de nicotina dos dedos dele já não se destaca mais o medo do escuro da solidão já não aflinge mais o cansaço do final de tarde já não abate mais. Às vezes até as cores mudam de repente quando ele chega porque os olhos dela mudam perto dele e ele é uma lente um espectro um ar uma inexplicação toda vez que toca nela. Ela sente aquela paz aquela naturalidade aquela serenidade aquela adrenalina aquela paixão pela vida que sempre ouviu falar. Ainda é uma pessoa pequena fútil mimada imatura chorosa queixosa arrogante teimosa, mas quando repousa nos braços dele poderia dar a volta ao mundo, numa bicicleta, sem filtro solar.
Assinar:
Postagens (Atom)